14/12/2016

Leitura espiritual



JESUS CRISTO NOSSO SALVADOR

Iniciação à Cristologia


PRIMEIRA PARTE


A PESSOA DE JESUS CRISTO



Capítulo V

CRISTO ENQUANTO HOMEM CHEIO DE GRAÇA E DE VERDADE


2. A graça e a santidade de Cristo

e) As virtudes sobrenaturais, os dons e carismas de Cristo

Juntamente com a graça, Cristo tem todas as virtudes, dons e carismas do Espírito Santo na forma conveniente à sua perfeição de Filho de Deus e à sua missão de Redentor.

As virtudes sobrenaturais. Como a Sagrada Escritura testemunha, Cristo teve muitas virtudes, e em grau admirável: a humildade, a obediência, a misericórdia, a pureza, a paciência, etc. Especialmente brilha n’Ele um amor sem mácula a seu pai e a nós, os homens, até ao ponto de oferecer a sua vida por cada um.

Sabemos que a graça diviniza a alma na sua essência, mas a sua acção civilizadora estende-se também às potências da alma mediante as virtudes sobrenaturais para que o homem possa realizar obras sobrenaturais. E a humanidade de Cristo estava plenamente enriquecida e divinizada pelo Espírito Santo, portanto não podiam faltar-lhe as virtudes infusas, e estas em grau máximo e perfeito.

Todavia, Jesus não teve aquelas virtudes que supõem em si mesmas alguma carência ou imperfeição: p. ex. não teve a fé (pois já possuía a visão de Deus), nem propriamente teve a esperança (pois já tinha a união com Deus), nem a penitência (pois não teve pecado).

Os dons do Espírito Santo.

A revelação diz-nos que Jesus, «cheio do Espírito Santo (…) era conduzido pelo espírito» (Lc 4,1); e também possuía os dons do Espírito Santo em grau excelentíssimo e eminente (cf. Is 11,2).
Sabemos que os dons do Espírito Santo levam à sua perfeição última as virtudes para que o homem actue totalmente segundo o querer de Deus. Daí que Cristo possuísse esses dons para que a perfeição de todas as virtudes fosse plena.

Os carismas.

Juntamente com a plenitude de graça, Cristo possui em plenitude os carismas do Espírito Santo, isto é, os dons divinos convenientes para desempenhar uma missão salvífica.
Jesus tem de modo perfeito todos os carismas que os homens tiveram para levar a cabo alguma missão para a edificação dos outros (os dons próprios dos apóstolos, profetas, pregadores, doutores, pastores, etc.), pois d’Ele provêm (cf. Jo 1,16), e a Ele correspondem como salvador de todos e supremo Mestre da nossa fé.

f) A santidade de vida e a ausência de pecado em Jesus Cristo

Jesus é santo também no sentido operativo e moral, enquanto viveu livremente em todo o momento a união sobrenatural com seu Pai pelo amor. A perfeição de graça e de caridade que possuía, levavam-no a identificar completamente a sua vontade humana com a vontade santa de Deus, no grande e no pequeno. Ele próprio confessa: «Eu faço sempre o que agrada a meu pai» (Jo 8,29; cf. 4,34).

E está livre de todo o pecado: «vem o príncipe deste mundo (Satanás), mas não tem nada em mim» (Jo 14,30; cf. Pd 2,22). Por isso o Magistério da Igreja, unindo-se à Sagrada Escritura, ensinou em muitas ocasiões esta realidade: Cristo é «semelhante a nós em tudo, excepto no pecado» (Heb 4,15; cf. 7,26-27)[1].

O Magistério da Igreja também assinalou que Jesus esteve livre do pecado original e que não sofreu a desordem da concupiscência, consequência desse pecado; de modo que n’Ele a sensibilidade estava sempre perfeitamente subordinada à razão[2].

Mas há mais: os teólogos sustentam que Cristo não só não teve nenhum pecado de facto, mas que, além disso, era impecável. A razão é óbvia: as acções são da pessoa; e se Cristo pudesse pecar, seria Deus quem pecaria, e teria que negar-se a si mesmo. Além do mais, Jesus Cristo enquanto homem, como veremos, gozava da visão intuitiva de Deus, que supõe também a impossibilidade de rejeitar o Bem infinito.

3. O conhecimento humano de Jesus Cristo

Como Cristo tem duas naturezas perfeitas tem dois modos de conhecer, um infinito e divino – comum a toda a Trindade -, e outro humano. Agora vamos estudar só este último.

a) A existência de um conhecimento humano em Cristo

A afirmação de um conhecimento humano em Cristo é patente em todo o Novo Testamento. E a Igreja, seguindo a revelação divina, defendeu sempre a integridade da natureza humana de Cristo, que tem uma alma racional e uma inteligência humana. Esta inteligência humana não pode estar privada da actividade que lhe é própria: o conhecer por si mesma; sendo o contrário seria vã e imperfeita. Por exemplo, o Concílio Vaticano II diz que o Filho de Deus «trabalhou com mãos de homem, pensou com inteligência de homem, obrou com vontade de homem, amou com coração de homem»[3].

Além disso, os teólogos colocaram-se a pergunta se Jesus, durante o seu caminhar terreno, teve os diversos modos de conhecer a que a inteligência humana está aberta e são possíveis para ela (a ciência adquirida, a visão beatífica e a ciência infusa). Como é lógico os Evangelhos não distinguem teologicamente os diversos modos de conhecimento, ainda que sugiram algumas coisas. E o Magistério da Igreja, ainda que tenha defendido a existência de um conhecimento humano em Cristo, não determinou a natureza e o alcance de todos os diversos modos de conhecer. Vejamos, pois, o que ensina a teologia mais segura.

b) O conhecimento experimental ou ciência adquirida de Jesus Cristo

Por ciência adquirida designam-se aqueles conhecimentos que o homem alcança com as suas próprias forças partindo dos sentidos e da experiência. O intelecto humano, apoiando-se nos dados da experiência sensível, tem a capacidade de conhecer o que são as coisas, não só as suas aparências, e conhecer as suas causas, as suas relações com outras, etc.

Sem dúvida que este é o modo de conhecimento de que fala São Lucas mostrando um Jesus criança que «crescia em sabedoria, idade e graça» (Lc 5,52). Jesus adquiria aqueles conhecimentos de forma semelhante aos outros homens: com as suas experiências e com a aplicação da mente, contando também com o conhecimento dos outros (cf. Mc 6,38; Jo 11,34), começando pelos ensinamentos que receberia de Maria e de José.

«Tal ciência é proporcional (…) e co-natural á natureza humana»[4]. Aceitar a existência deste conhecimento adquirido em Cristo – e, portanto, progressivo -, é consequência do realismo com que se aceita a Encarnação do Verbo.

Parece claro que este conhecimento adquirido teria um alcance limitado, pois a sua inteligência humana desenvolvia-se nas condições históricas concretas da sua existência, que eram limitadas no espesso e no tempo. Ainda que a clareza e a força da sua inteligência o fizessem entender a realidade das coisas que ia experimentando com muito mais profundidade e sabedoria que no caso dos outros homens.

c) A visão beatífica da alma de Cristo

Chama-se ciência de visão ou visão beatífica ao conhecimento íntimo e imediato de Deus que é próprio dos bem-aventurados do céu, e que os faz semelhantes a Ele porque o vêem «tal qual é» (1 Jo 3,2), «face a face» (1 Cor 13,12).
A afirmação da existência da ciência de visão em Cristo durante a sua vida terrena fundamenta-se naqueles textos do Novo Testamento nos quais se diz que Ele vê a Deus a quem ninguém pode ver: «Ninguém viu o Pai, senão aquele que procede de Deus, esse viu o Pai» (Jo 6,46). Por isso, Jesus se apresenta como testemunha do que vê em Deus; por exemplo quando diz: «Aquele que me enviou é veraz e eu ensino ao mundo o que lhe ouvi (…) Eu digo o que vejo no Pai; (Jo 8,26.38).

Ainda que historicamente houvesse algumas dúvidas acerca de se esses textos se referiam à sua ciência humana de visão ou antes à ciência divina, a Tradição da Igreja, desde Santo Agostinho, tem sido concorde em afirmar a ciência beata em Cristo. E o Magistério da Igreja em algumas ocasiões referiu-se à existência deste conhecimento em Cristo, ainda que não tenha definido esta doutrina como de fé[5].

A existência desta ciência em Cristo funda-se na união da natureza humana ao Verbo: como consequência dessa união, o intelecto humano de Cristo gozava de um pleno e imediato conhecimento do Verbo.

Segundo o comum parecer dos teólogos, Cristo com a ciência de visão via não só a divindade mas também todas as coisas, já que todas têm relação com a sua missão na terra, pois Ele foi constituído Redentor de todos. E alguma vez o Magistério da Igreja disse que é certa «a sentença que estabelece (…) que desde o princípio conheceu tudo no Verbo, o passado, o presente e o futuro»[6]

d) A ciência infusa ou profética em Cristo

Ciência infusa é aquele conhecimento que não se adquire pelo trabalho da razão, mas que provem directamente de Deus pela comunicação de algumas ideias à mente humana.
Não há que a confundir com a ciência de visão, pela qual se vê imediatamente a Deus em si mesmo. Um exemplo de ciência infusa é o conhecimento profético.
Os textos do Novo Testamento não são inconversíveis no sentido de afirmar a existência de uma ciência infusa em Cristo. Todavia, é-nos sugerido este tipo de conhecimento sobrenatural de Cristo ao mencionar que conhecia os pensamentos secretos do coração dos homens[7], ou os acontecimentos futuros que prediz, como são as negações de Pedro, os acontecimentos da sua Morte e da sua Ressurreição, etc.

O Magistério da Igreja só alguma vez isolada se referiu à ciência infusa de Cristo. E, ainda que alguns teólogos duvidem acerca de se esses textos da Escritura se referem a este tipo de conhecimento ou ao de visão beatífica, a maior parte deles opina que Cristo gozou também de ciência infusa.

e) Como se compaginam em Cristo esses diversos tipos de conhecimento humano?

Como poderia Cristo adquirir e progredir em conhecimentos por ciência adquirida, se já sabia tudo por ciência de visão?

Neste ponto as explicações dos teólogos hão-de partir da plena aceitação dos dados revelados, os quais indicam que Jesus aprendia, e por outro lado nos mostram que gozava da visão de Deus. Assim, pois, para esclarecer em algo este mistério, afirmaram que se trata de dois conhecimentos situados a níveis diferentes e características diversas, de modo que um conhecimento não impedia o outro.

Sobre esse esquema geral deram-se diversas explicações, com diferentes posturas e terminologia, tanto na antiguidade como no século XX. Mas há que reconhecer que estas opiniões são incapazes de elucidar este mistério, que permanece inacessível a nós, e que reflecte a profundidade inescrutável da união hipostática.

f) A plenitude ciência em Cristo e a ausência de erro e de ignorância n’Ele

Plenitude ciência em Cristo.

A Sagrada Escritura ensina que Jesus Cristo está «cheio de graça e de verdade» (Jo 1,14); n’Ele «estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência» (Col 2,3). Daí que a Tradição da Igreja tenha insistido na plenitude de conhecimento em Cristo que exclui todo o erro e ignorância.

Em Cristo não se dá o erro.

A crítica histórica, o protestantismo liberal e o modernismo, sustentaram que Jesus padeceu de erro no respeitante à data do fim do mundo e quanto à natureza do seu messianismo. Apoiam-se nalguns textos do discurso escatológico (Mt 24 e paralelos) nos quais o Senhor parece anunciar o fim do mundo como eminente, e em alguns outros textos isolados (cf. Mt 16,27-28).

São Pio X em 1907, condenou estas teorias dizendo que Cristo não teve erro algum[8]. Mas é que, além disso, a existência de um erro em Cristo implicaria que não é Deus, que não é a Verdade. E, por outro lado, o erro iria contra a sua missão de Mestre de todos os homens. Por isto, a maior parte dos teólogos afirmam que «pertence à fé» não só que Cristo não se enganou, mas também que era infalível, que era possível que errasse.

Cristo não teve ignorância.

Existem na Escritura alguns textos que parecem indicar alguma ignorância em Jesus; o texto mais importante para a nossa questão è aquele em que Jesus diz ignorar o dia e a hora do juízo (cf. Mt 24,36 e Mc 13,32).
Baseando-se nesse texto, na antiguidade houve quem sustentasse a ignorância em Cristo. Todavia, a maioria dos Padres afirmou que Cristo não ignorava quando chegaria o fim do mundo, mas que não queria nem devia revelá-lo. Neste sentido o catecismo da Igreja Católica diz: «O que neste campo reconhece ignorar (cf. Mt 13,32), declara noutro local não ter a missão de o revelar (cf. Act 1,7)»[9].

Também hoje alguns postulam uma ignorância em Cristo, que inclusive é considerada como um factor positivo e necessário da sua verdadeira humanidade. Esta opinião não considera suficientemente que Jesus não é um simples homem como nós, mas Deus feito homem.

A Igreja rejeitou em diversas ocasiões esses erros, e assinalou como certa «a sentença que estabelece não haver nada ignorado na alma de Cristo»[10].

(cont)

Vicente Ferrer Barriendos

(Tradução do castelhano por ama)





[1] CF. S. LEÃO MAGNO, DS, 293-294; CONC. CALCEDÓNIA,DS, 301.
[2] Cf. CONC II DE CONSTANTINOPLA, DS, 434; CONC. DE FLORENÇA, DS, 1347.
[3] GS, 22.
[4] S. Th. III,9,4.
[5] Cf. DS, 3645; PIO XII, Enc. Mystici corporis (DS, 3812) e Enc. Haurietis aquas (DS, 3924).
[6] DS, 3646.
[7] Cf. Mc 2,8; Jo 1,47-49; 2,25; 4,17-18.
[8] Cf. DS, 3432-3435.
[9] CCE, 474.
[10] DS, 3646. Cf. DS, 474-476; CONC LATERANENESE (a. 649), DS, 518-519.

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