29/04/2017

O meu amigo Diogo Brito

O chamamento ao sacerdócio é verdadeiramente irresistível

1. Com uma vida profissional já estabelecida o que o levou a decidir ser padre?

Fiz com muita satisfação o meu curso de Direito e tive a possibilidade de exercer durante quase 10 anos a advocacia entre colegas e "chefes" de grande craveira, de quem aprendi muito e entre os quais fiz muitas amizades. O espírito do Opus Dei ajudou-me, ao longo de todo esse tempo (em que também promovi e participei, com não menos gosto e satisfação, em muitas atividades de voluntariado e de formação cristã, humana e cultural, com colegas de faculdade ou trabalho ou jovens de diversas idades), a procurar orientar o meu trabalho para a glória de Deus e o serviço da sociedade.

O ESPÍRITO DO OPUS DEI AJUDOU-ME (...) A PROCURAR ORIENTAR O MEU TRABALHO PARA A GLÓRIA DE DEUS E O SERVIÇO DA SOCIEDADE.

Sempre encarei, por isso, o meu trabalho de advogado como uma parte importante da minha resposta ao dom da fé cristã e ao grande dom da vocação de Numerário do Opus Dei (ambos esses dons devo-os também, em grande medida, ao exemplo e carinho dos meus Pais) No entanto, o chamamento a aceder agora ao sacerdócio, o qual tem uma beleza e grandeza incomparáveis (o sacerdote é, de uma forma muito especial, instrumento de Cristo para a salvação dos homens!), é verdadeiramente "irresistível" e como que torna fácil deixar para trás qualquer carreira profissional, por mais prometedora que seja.

O CHAMAMENTO AO SACERDÓCIO (...) É VERDADEIRAMENTE "IRRESISTÍVEL" E COMO QUE TORNA FÁCIL DEIXAR PARA TRÁS QUALQUER CARREIRA PROFISSIONAL, POR MAIS PROMETEDORA QUE SEJA.

Gostava ainda de referir que, desde muito novo, tive também a enorme "sorte" de conhecer e ser ajudado por vários sacerdotes que foram anteriormente engenheiros, advogados, professores, médicos, e que a certa altura da sua vida, ante um chamamento semelhante ao meu, "trocaram" a sua profissão pelo sacerdócio. Agradeço-lhes o seu exemplo, que me serve particularmente de apoio para esta minha decisão.

2. Para si quais são as prioridades que um padre deve ter?

Aprendi do fundador do Opus Dei que um padre deve, antes de mais, cuidar da sua própria vida espiritual: dedicar diariamente um tempo generoso a Deus, por meio da oração, dos sacramentos - a começar pela celebração devota da Santa Missa, mas sem esquecer a receção frequente, por ele mesmo, da Penitência -, do cuidado da sua própria formação cristã.

DESDE MUITO NOVO, TIVE TAMBÉM A ENORME "SORTE" DE SER AJUDADO POR VÁRIOS SACERDOTES QUE FORAM ENGENHEIROS, ADVOGADOS, PROFESSORES, MÉDICOS.

Um padre deve, também, estar unido de modo particular às intenções e indicações do seu Bispo e do Santo Padre, para assim actuar em todo o momento em comunhão e unidade com a Igreja e poder levar as pessoas a Cristo (e não a ele próprio).

Quem abraça o sacerdócio, deve estar disponível para o seu ministério as 24 horas do dia. É também importante que esteja a par do que acontece na sociedade, dos problemas e dos desafios de cada momento e de cada região, mas deverá sobretudo estar capacitado e disponível para acolher a todos, dialogar com todos. Penso que esta conhecida frase de João Paulo II diz tudo: "são necessários arautos do Evangelho peritos em humanidade, que conheçam a fundo o coração do homem de hoje, participem das suas alegrias e esperanças, angústias e tristezas, e ao mesmo tempo sejam contemplativos, enamorados de Deus".

Parece-me particularmente importante, também, que o sacerdote tenha consciência do protagonismo que cabe aos leigos na evangelização do mundo: a sua prioridade deveria ser, na minha convicção, a de ajudar os leigos a intensificar a sua vida cristã, para que a possam viver e testemunhar na família, entre os amigos e colegas de trabalho, nas mais diversas realidades da vida social.

APRENDI DO FUNDADOR DO OPUS DEI QUE UM PADRE DEVE, ANTES DE MAIS, CUIDAR DA SUA PRÓPRIA VIDA ESPIRITUAL

Salientaria, por último, o impulso do Papa Francisco para que a Igreja não fique fechada em si mesma, mas vá ao encontro de todos, onde quer que estejam, também no que ele tem designado de periferias (sociais, intelectuais ou religiosas: pessoas que não frequentam a Igreja, não pensam como cristãos, não acreditam em Deus).


3. Aos que pensam em entregar a sua vida a Deus o que lhes pode dizer?

Marcaram-me especialmente as palavras que ouvi ao Papa Bento XVI na inesquecível Jornada Mundial da Juventude de 2005, em Colónia: "Se pensamos e vivemos em virtude da comunhão com Cristo, então abrem-se os nossos olhos. Então deixaremos de nos adaptar a ir vivendo preocupados unicamente com nós próprios, mas veremos onde e como somos necessários. Vivendo e agindo assim bem depressa nos daremos conta de que é muito mais belo ser úteis e estar à disposição do próximo do que preocupar-se unicamente das comodidades que nos são oferecidas".

Estas palavras traduziam bem a minha experiência pessoal ao longo de 10 anos de entrega a Deus no Opus Dei e continuaram a inspirar-me desde então. Teria gosto em repeti-las, por isso, a quem pensa em entregar-se a Deus.

Recordar-lhes-ia ainda o momento inesquecível que vivi junto do Papa João Paulo II doente mas cheio de energia, num encontro com jovens em Madrid em 2003, em que nos disse o seguinte, com especial força: "o compromisso da nova evangelização (...) é uma tarefa de todos. (...) Eis a razão pela qual desejo dizer a cada um de vós, jovens: se sentis a chamada de Deus que vos diz: "Segue-me!" (Mc 2, 14; Lc 5, 27), não a sufoqueis. Sede generosos, respondei como Maria oferecendo a Deus o sim alegre das vossas pessoas e da vossa vida". E acrescentou, com bom humor mas enorme profundidade, o seguinte: "eu fui ordenado quando tinha 26 anos. Desde então passaram 56.Então, quantos anos tem o Papa? Quase 83! Um jovem de 83 anos. Quando olho para trás e recordo estes anos da minha vida, posso garantir-vos que vale a pena dedicar-se à causa de Cristo e, por amor d'Ele, consagrar-se ao serviço do homem. Vale a pena dar a vida pelo Evangelho e pelos irmãos!".

4. O que pode um padre fazer por aqueles que não acreditam em Deus?

A própria "existência" de alguém que, de forma pública, notória e permanente dedica o seu tempo, saúde, energias e posses a Deus e aos outros, renunciando a outras coisas boas e legítimas da vida (formar uma família, seguir uma carreira civil, gozar de prestígio social ou bem-estar económico, etc.) pode já ser, em si mesma, um grande motivo de reflexão para aqueles que, por razões muito diferentes, não experimentaram ainda a alegria do encontro com Deus.

O PADRE DEVE, ANTES DE MAIS E PRINCIPALMENTE, REZAR DIARIAMENTE (...) POR TODOS OS QUE NÃO CONHECEM, ESQUECERAM OU ABANDONARAM DEUS.

Além disso, o padre deve, antes de mais e principalmente, rezar diariamente - eu procuro fazê-lo - por todos os que não conhecem, esqueceram ou abandonaram Deus: só a graça de Deus actua no interior das almas; sem ela, toda a ação do sacerdote - ou de qualquer outro fiel cristão - seria apenas demonstração de preocupação, amizade ou "propaganda", incapaz de produzir no não crente uma genuína descoberta de Deus.

Diria, por último, que o padre há-de mostrar sempre uma grande capacidade de compreensão e tolerância, de acolhimento e diálogo, também com os não crentes; fazer um esforço por conhecer os seus problemas e dúvidas, ideias e atitudes para, a partir daí, e confiando na bondade de fundo e no desejo de verdade que estão presentes em todas as pessoas, bem como na real ajuda da graça (para ele próprio e para os não crentes), fazer propostas ou dar conselhos que tornem Cristo mais próximo dessas pessoas.

Deus tem uma vocação para todos e cada um. Todas as vocações na Igreja - laical, sacerdotal ou à vida consagrada - são igualmente belas e dignas.
Diogo Brito com um grupo de universitários do Porto
Diogo Brito com um grupo de universitários do Porto

5. Que mensagem tem para as pessoas que estão a ler esta entrevista?

Para além do que já fui tentando expressar antes, gostaria de acrescentar apenas que Deus tem uma vocação para todos e cada um. Todas as vocações na Igreja - laical (no matrimónio ou no celibato), sacerdotal ou à vida consagrada - são igualmente belas e dignas. Vale a pena ter a ousadia de se colocar à disposição de Deus, para O servir da forma que Ele pensou para cada um: aí está, penso, o caminho para a felicidade.

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